Em 2003 foi o início da busca de conhecimento sobre mamíferos.
Em 2003 eu e um grupo de amigos participamos de um congresso brasileiro de Mastozoologia em Belo Horizonte e dois trabalhos me chamaram a atenção: um sobre coleções zoológicas (que era o que eu fazia no Laboratório de Vertebrados da UFES!) e outro sobre estrutura população de ouriço-cacheiro. Esse segundo trabalho fora realizado no Parque Estadual Paulo César Vinha, em Setiba, por um tal Rivelino Galvão que realizara esse trabalho junto ao laboratório na qual eu estava vinculado!
Isso foi o início para, junto com Rivelino, começarmos um trabalho com ouriços no Parque Estadual Paulo César Vinha (PEPCV). Na verdade, de início, o objetivo era dar continuidade ao trabalho já iniciado por Rivelino sobre os ouriços do parque. Além dele ter capturado (e devolvido ao ambiente natural!) os bichos inúmeras vezes, havia o desejo de coleta de mais pêlos e espinhos para futuros trabalhos sobre a genética desses animais, já que a taxonomia deles é ainda bastante estudada e muito complexa (há alguns trabalhos publicados sobre isso mas o objetivo desse diário não é colecionar referências!). Tudo começou oficialmente no dia 17 de Janeiro de 2005, em um projeto que visava a Biologia da Conservação do Ouriço-Preto, projeto esse elaborado pelo Instituto Dríades de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade.
Ouriços, que relato, são mamíferos arborícolas de hábito noturno que ocorrem na Mata Atlântica. Na verdade, duas espécies foram as peças-chave de nossas excursões ao parque: o ouriço-cacheiro (Sphiggurus sp.) e o ouriço-preto (Chaetomys subspinosus).
Quando Sphiggurus chega à fase adulta, seu dorso e laterais
do corpo mostram-se guarnecidos por espinhos de amarelos, compridos e aguçados, enquanto o ventre e a cauda possuem pêlos rígidos e curtos. Sua cauda pelada consegue mantê-lo bem agarrado a cipós e ramos de árvores, escondido de olhares indesejados em grandes alturas.
Já Chaet
omys é um roedor de coloração geral pardacenta. Seus espinhos diferem dos de outras espécies pois assemelham-se mais a cerdas do que os espinhos verdadeiros, de onde se originou um de seus nomes populares “ouriço-do-espinho-mole”. São dóceis e emitem um som rouquenho quando molestados.
Como já disse, no PEPCV haviam as duas espécies e Chaetomys era muito raro de ver! Foram várias excursões no PEPCV, muitas vezes, apenas nós dois. Após quatro horas olhando para cima, na copa das árvores, nossos pescoços doíam porque, durante o dia, esses bichos ficavam letárgicos nos emaranhados de cipós e lianas.
Mas, ás vezes, tínhamos a ajuda de um antigo aprendiz de caçador e um defensor da área do PEPCV, o Senhor Toninho, que conhecia cada centímetro daquela área.
Com o Sr. Toninho, a coleta de alguns desses bichos acontecia com sucesso porque ele trepava nas árvores subindo rapidamente pelo tronco. Na copa da árvore, próximo aos emaranhados de galhos secos ou lianas, agarrava o animal pelo rabo com força e o balançava para que caísse ao nosso alcance. Era nesse momento, estando o bicho já no chão, que Rivelino imobilizava o animal, no pescoço, com uma forquilha de madeira. Depois disso aplicava um calmante no bicho para fazermos o essencial: medíamos a cauda, o corpo, a cabeça; fazíamos a coletas de pêlos e espinhos, além de fazermos a pesagem e a identificação sexual.
Sr. Toninho observava tudo atentamente, sempre adorando o animal e lembrando que o bicho ainda é muito caçado, pois “atacam” cachorros nas regiões vizinhas.
No dia 18 de Junho de 2005 obtivemos bons dados em relação a Chaetomys. Foram quatro animais encontrados em apenas um dia! Todos na área da parque. Foi o dia em que mais andamos: da entrada do PEPCV até o guichê da cobrança de pedágio da RODOSOL!
Na volta estávamos exaustos, mas felizes!
Em todas as nossas idas ao campo, nunca tinha ouvi Sr. Toninho reclamar da sede.
Foi a primeira vez que reclamara de sede, e não faltou gargalhadas:
“É Thiago, dessa vez eu tenho que te dizer: tô com sede e uma Coca-Cola gelada agora ia muito bem!”





Nossa, Thiago! Que texto bonito. Estou aqui em Brasília lendo e sentindo saudades dessa época. Dessa eu não sabia: que o Sr. Toninho havia reclamado de sede! Ele não come nada, nem bebe enquanto está na mata. Incrível!
O Blog está cada vez melhor, a idéia desse diário foi muito boa.
Parabéns!
Bruno